O Brasil das 21h: A Telenovela como Álbum de Família Nacional
- Mabu Botelho

- 19 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Você já percebeu o silêncio que tomava as ruas antigamente quando o relógio marcava nove da noite? O falatório do elevador, no ônibus e nas calçadas quando os últimos capítulos eram anunciados.
Durante décadas, o "horário nobre" funcionou como a fogueira moderna. Era ao redor dessa luz azulada que as tribos modernas se reuniam para ouvir histórias. Não importava se você estava em um barzinho do centro da cidade ou no interior: às 21h, o Brasil parava.
Mesmo quem diz "eu não assisto novela" sabe exatamente o que significa um "quem matou Odete Roitman?". Todo mundo reconhece o olhar psicótico de Nazaré Tedesco ou a risada vingativa de Carminha. Isso transcende o gosto pessoal; isso é o que vamos chamar aqui de cultura compartilhada. É o vocabulário comum da nação que, por uma hora, falava a mesma língua.
Mais do que entreter, a novela nos "ensinou" a ser brasileiros. Ela ditou o corte de cabelo, a gíria da vez ("Inshalá!", "Toca pro inferno"), o que vestir e até como amar ou brigar. A ficção invadia a realidade, moldando o comportamento nacional.
Mas, se a novela era o nosso álbum de família nacional, quem estava nas fotos?
Durante décadas, o Brasil que se via na tela não correspondia ao Brasil que estava no sofá. O país diverso, negro, indígena e nordestino era frequentemente reduzido a caricaturas, empregados domésticos ou cenários exóticos para as férias dos protagonistas paulistas/cariocas.
Nos últimos anos a teledramaturgia tentou recuperar a rota e estabelecer um novo ponto.
A comparação entre a versão original e o remake recente de Vale Tudo é a prova de que mudar a rota não muda a mentalidade colonial. Na versão de 1988, o racismo era explícito. Personagens negros eram subalternizados e associados à criminalidade ou ignorância. A empregada doméstica servia de alívio cômico por seus "erros" de português.
O remake de 2025, trouxe uma tentativa de atualização. Mas, como diagnostica a neurose cultural, o racismo foi negado no discurso e reafirmado na prática. A personagem Raquel (Taís Araújo) sofreu um processo de "embranquecimento simbólico". Apesar de anunciada como protagonista, a narrativa gradualmente a deslocou, devolvendo o centro do palco para personagens brancos. Para ser "aceita" na sala de estar da classe média, Raquel precisou ser despida de sua negritude e sacrificada.
Existe um padrão perturbador nas obras recentes escritas por Manuela Dias e protagonizadas por Taís Araújo (Amor de Mãe e o remake de Vale Tudo).
Em ambas as tramas, vemos a atualização dos arquétipos raciais estabelecidos pela teledramaturgia:
Vitória, uma advogada de sucesso que é punida pela narrativa até ser "resgatada" por um amor branco. Raquel, uma protagonista que perde sua função heroica para servir de "escada moral" ou emocional para os demais núcleos.
Mesmo quando essas mulheres negras vencem, a vitória vem com a exigência do sacrifício e da maternidade (como no final do remake, onde Raquel termina cuidando do filho de Maria de Fátima).
A crise de representatividade na TV não é um erro de cálculo; é um sintoma.
A resistência do público e a crítica aos remakes vazios mostram que a memória nacional tem vida própria. Uma verdadeira transformação só acontecerá quando a televisão deixar de ser um espelho dos seus próprios erros e reconhecer que o Brasil é plural.


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